Pisando em ovos

Temos todos que pisar em ovos!

Sabes, tu, voar?

Me falta a delicadeza,

fincado os meus pés,

em calçados de concreto.

Quebra um, morre outro,

simples…

Temos todos que pisar em ovos,

acaso flutuaremos?

Tolices transcedentais!

Presos estamos ao chão,

e um mar de ovos,

á frente,

e rifles mirando nossas testas,

quebra um, morre mais outro,

temos todos que pisar em ovos,

sabes, tu, voar?

Invejo-te oh Ícaro,

valeríam-me, tuas asas, a vida,

tão alto não subiría,

Nem razantes daría no mar,

fugiría! vivería!

Temos todos que pisar em ovos,

Ícaro não existe, nada existe?

quebra um, morre mais outro,

simples…

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Lua Cheia

Um eco no escuro!

um uivo,

um homem,

lobisomem? Não,

grito de dor,

lamento da alma,

cativa, amordaçada,

pelo lobo,

o lobo de olhos vermelhos,

como o homem,

olhos de sangue,

de tanto chorar,

água, sal,

e angústia,

será que o homem comeu o lobo?

ou o lobo que comeu o homem?

lobisomem,

menino lobo,

menino bobo.

Uiva! Uiva! Enquanto podes!

que logo te calarão,

senão a ti, o homem,

lobo e homem,

de repente somem…

Não uiva mais,

pra fora,

uiva pra dentro,

chora por dentro,

seu lamento,

de homem, de lobo,

lobisomem? Não,

menino homem,

menino lobo e homem.

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Náusea

Está chovendo canivetes sobre os homens,

está chovendo sangue sobre a terra,

a lâmina delicada incísa a pele,

a pele se abre em flores,

o sangue como orvalho goteja,

sobre a terra, esgotada,

sacíada,

que de tanto, tem náuseas,

e debrulha, debrulha,

até vomitar,

sangue e ácido,

está chovendo sangue sobre os homens,

está chovendo corpos sobre a terra.

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Revelação

Atenta-te ao que vou lhe dizer,

um mistério enfim revelarei,

aos que dignos, então, confiei,

a tristeza que aflige o meu ser.

Flutuava, curiosa, minha alma,

sob a abóbada sem astros,

em trevas, sobre as ruínas do palácio,

no dia em que morreu o sol.

O luto se fez sem igual,

num glorioso e místico funeral,

quando as estrelas se retiraram,

e em seus buracos se esconderam,

no dia em que morreu o sol.

Oculta pelo negro véu,

das viúvas atordoadas,

pranteou a lua, solitária,

com tal desgraça amargurada,

no dia em que morreu o sol.

E milhões de almas desencarnadas,

pelo brilho, do cujo, imortalizadas,

em um fúnebre coral lamentavam,

no dia em que morreu o sol.

A humanidade nada viu,

nem se atentou pra tamanho frio,

e homenagem nenhuma prestou,

antes, com desdém debochou,

no dia em que morreu o sol.

Somente a sensível corte chorou,

quando vosso rei resvalou,

no dia em que o céu parou,

e que a lua não perdoou,

ouça bem, repito,

naquele dia…

que já não era mais dia…

noite…noite…

na noite em que morreu o sol.

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Um breve comentário

Caiu um meteoro na alameda 16,

morreram quantos? 33?

ninguem viu, ou ouviu,

nem notaram sequer,

os corpos voando sobre suas cabeças,

nos  telhados, nas salas, nos quintais,

apodrecendo, decompondo,

todos,

nem notaram sequer,

nem na Tela saiu,

quando mais uma vez enfim,

caiu um meteoro na alameda 16,

morreram quantos? 93?

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Torre de Babel

O que? Não me entende?
Falo claramente,
sem rodeios,
está me ouvindo?
E você, também não?
Alguem?
Me entende?
Não te entendo.
Por gestos?
Ainda não?
Meu Deus,
sozinho,
sozinho,
Alguem, por favor!
Se esforce,
me comprometo também,
ao menos tente,
me de sua mão,
e a sua?
Acalmemo-nos
por um instante,
o pânico só piora,
por favor,
todos nós!
Nem mais um?
Como eu?
Nem você?
Tente!
olhe para mim,
pare, pare,
não aguento,
minhas forças!
Preciso sentar,
o caos,
minha cabeça!
Sozinho,
sozinho,
muito alta!
A torre,
e agora?
Está rodando,
o céu,
a torre,
todos,
barulhentos,
indecifráveis,
como eu,
sozinho,
sozinho,
aqui,
ao seus pés.

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Poeta sem lágrimas

Os olhos vermelhos,
A tez pálida,
o coração apertado,
quem saberá?
Oh! poeta sem lágrimas!
Vai-te insensível,
tropego,
por veredas áridas,
em murmúrio seco,
dum riacho,
morto, estéril,
que não deságua,
aguenta,
sempre,
de olhos cansados,
e coração marejado,
quem suportará?
Oh poeta sem lágrimas!
Forte és tu,
que resiste impávido,
ás mazelas do mundo,
desiludido,
encharcando,
não a ti, enxuto,
sobre tudo,
impermeável,
de olhos inquietos,
e coração sufocado,
quem sofrerá?
Oh poeta sem lágrimas!
Enquanto isso,
vai-te secando,
ressequido, áspero,
mas para ti,
absorvendo,
sozinho sentindo,
crescendo,
inchado,
de olhos pasmados
e coração encharcado.
quem secará?
Oh poeta sem lagrimas!
Ao som de torrentes,
que dos céus descem,
por suas veias,
borbulhando vida,
sonhos,
como cachoeira,
em miragem desértica,
impetuosa,
quase alagando,
um estranho,
de olhos enxutos,
e coração inundado,
quem salvará?
Oh poeta sem lagrimas!

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Temor

Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas

A cada instante te oferece a cova.

Pisemos devagar. Olha que a terra

Não sinta o nosso peso.


Deitemo-nos aqui. Abre-me os braços.

Escondamo-nos um no seio do outro.

Não há de assim nos avistar a morte,

Ou morreremos juntos.


Não fales muito. Uma palavra basta

Murmurada, em segredo, ao pé do ouvido.

Nada, nada de voz, – nem um suspiro,

Nem um arfar mais forte.


Fala-me só com o revolver dos olhos.

Tenho-me afeito à inteligência deles.

Deixa-me os lábios teus, rubros de encanto,

Somente para os meus beijos.


Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas

A cada instante te oferece a cova.

Pisemos devagar. Olha que a terra

Não sinta o nosso peso.

(Contradições poéticas)

Junqueira Freire

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Fiat Lux

Fiat Lux!

Trovejou, iluminando,

a mim, a todos,

a quem?

Alcancemos, pois,

a ponta do fio,

dourado,

vestindo-nos de glória,

de luz!

Conhecendo o consciente,

que existe,

somente,

no saber que rompe o tempo,

o espaço,

o ego,

pulverizando as barras de ferro,

ignorantes,

lançando no vento.

Libertas!

que não tardia,

mas chega,

sem hora, não há,

nós somos.

Abra seus olhos,

erga suas mãos,

entenda,

sobre ti,

Fiat Lux!

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