Eliza

Deveras te amei,
amo-te, Eliza…
Sufocada minha existência por ti,
que deveria a mim pertencer,
como um pérfido parasita vivi,
nutrindo-me de tua vida em cada anoitecer.
De teu cálice provei a terrível mistura do sentir,
minto! Como menino, em goles tomei,
não respirando, sem ao menos comedir,
mas guloso absorvendo todo o seu líquido.
Sufocando-me por infames paixões,
que abrasam o corpo e a alma,
juntei-me aos condenados do Hades,
atormentados por demônios que rouba-nos a calma,
desci as profundezas da mente,
do cruel estado de entorpescência,
experimentados por aqueles que, insanos,
desafiam os limites da razão, da ciência,
querida, por ti…
Não te aflijas minha vítima, no fim,
o condenado sou eu, profano,
que roubando brasas da mão de um serafim,
sentenciado fui ao meu mausoléu.
Do colírio dos amantes me apossei,
e o que não deveria ser notado, mas ignorado,
indevidamente enxerguei,
carregando em mim a devida punição do meu erro,
somente meu.
Ao iníquo não é permitido contemplar o santo,
sem contudo ser fulminado,
sim,
Esplendoroso dia o de hoje,
em meu quarto da janela contemplo,
e me incomodo com a agressão a este impuro templo,
que em expectativa aguarda o envolver do nada.
Servos e servas, ouro, prata, seda,
Cavalos, carruagens, moedas,
Banquetes, bailes e risos,
Por fim tudo desprezo, e na fogueira lanço,
Ou melhor, na fogueira me lanço,
Me lancei,
quando incendiado fui ao contemplar,
por um instante, o fogo do teu olhar.
Que por fagulhas me abrasou,
aos poucos, poderosamente,
por inteiro, consumindo me inflamou,
em volúpia crescente.
Não te lamentes, meu anjo, um minuto sequer,
tua piedade não mereço,
viva tua vida pois quando a noite vier,
viverei a minha, em descanso.
Penses somente que teu não,
abriu-me os portões da paz,
que perdi ao contemplar a visão,
de tua glória, para mim mordaz.
Num relâmpago, iluminando na escuridão,
vi o mais belo ser que os meus sonhos habita,
no trovão, porém, atinjo a sublimação,
recuperando, enfim, a calma bendita.
Deleitar-me-ei no abraço consolador,
do confortável abrigo,
que em mim dissipa a dor,
achando aqui um eterno amigo.
Aos que julgar-me-ão louco ou insensato,
afirmo, nunca estive tão sóbrio,
não pressuponham deste pérfido assassinato,
ser, eu, um maníaco subvertido pelo ópio.
Despertei-me do sonho maldito,
que os amantes, amaldiçoados,
insistem em viver, decrépitos,
sem perceberem que são infortunados.
Apenas quero o doce e suave beijo do silêncio,
toma-me em teus braços!
silencia minha mente, meu coração, meu corpo, serôdio,
príncipe, já ouço teus passos.
Escuto ao longe, no horizonte,
o trotar da marcha, os sinos eclesiásticos,
a egrégia e pálida fronte,
da rainha temível, do fantástico.
Fitando-me, tranquilamente,
amável, me viste,
sou agora teu.
Sim, invoquei-te, mesmo contra tua vontade,
mas és humilde e não te irritas,
antes, reveste-nos com o negro véu da verdade,
consumindo tudo que então avistas.
Santa Eliza, imaculada!
não te assustes quando de mim lembrares,
pois em mim, levar-te-ei pura, glorificada,
emanando luz, elevada nos ares.
Eterna…
Pois cada batida do meu coração,
leva no vento o existir,
quando no fim levado serei pela canção,
trazida pela brisa do partir.
por ti, por mim…
maravilhosa…
Porque, nobre rapaz, invocar-me desta maneira?
estás já fraco e não podes escrever,
encarrego-me, portanto, da voz derradeira,
eloqüente, dos que não suportam sofrer.
Do frasco vazio compreendo minha visita,
imóvel no chão, está também teu coração,
que me entregaste com beleza infinita,
ao lançares em tão romântica ação.
Não me julgues insensível, o sou até demais,
sofro e choro todo dia,
carregando em meus braços almas tais,
que como a tua amor nutria,
amor assaz!
Emociona-me…
Reclinaste teu débil corpo sobre a mesa,
retirar-lhe não posso a agonia de tua escolha,
assisto, impotente, o titubear da chama, ainda acesa,
e o sangue de tua boca escorrendo sobre a folha,
sangue e lagrimas!
Emociona-me…
Acalma-te, oh pequeno anjo!
da tua angústia, agora, libertá-lo-ei,
descortinando, o oculto lhe mostrarei,
e com repouso almejado lhe galardoarei,
Abro minhas asas sobre ti,
aninha-te, pois, na minha escuridão,
que sobre ti descansa agora, elevando-lhe sem demora,
em um frêmito de consolação.
Eleva-te querido,
sublima-te!
Chegou a sua hora,
de romper as correntes do tempo,
enterneça-te em sua aurora,
que a ti traz paz e acalento,
emociona-me…
Uma brisa suave acaricia minha pele,
debruçado me encontro sobre o papel,
aliviado depois do martírio daquele,
amargo liquido redentor e cruel.
Dor, já não há, nem no corpo, nem na alma,
só uma mítica sensação do porvir,
que julgo ser inerente das almas que estão pra ir,
encontrando o desconhecido, envolvente.
Inexplicável é a presença que sinto,
arrepiando-me o espírito,
e juro por Deus, não minto,
é real e fala ao meu ouvido,
suave, tranqüilo,
refrescante!
Chegas-te!
Seu súdito lhe saúda,
grande mãe acolhedora,
embala-me em teu seio,
minha amiga auxiliadora.
Leva-me, já!
Rendido estou aos teus cuidados!
fica em paz, doce Eliza..
A ti ofereço meu ultimo suspiro,
àquela que amei mais que a mim mesmo,
deixo-lhe também meu sangue neste papiro,
como prova de um amor eterno,
por uma donzela,
Eliza…
Leve, leve, flutuo devagar,
subindo, gloriosa sensação,
imortalidade a abençoar,
abatida alma com absolvição.
Luz! Trevas! São o mesmo…
Descanso, não sofro,
Amo-te!
Amanheço…

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